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A solidão das pequenas comunidades

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 21.07.08

 

Quando falamos em solidão, geralmente associamo-la à grande cidade. Raramente a imaginamos numa pequena comunidade. Mas é igualmente terrível. Porque a manutenção do olhar do outro é a manutenção de um único papel. E não há nada mais limitador que um único papel, condicionado pelo olhar redutor (e imutável) do outro.

 

Rachel, Rachel. Aqui Paul Newman a dar-nos uma perspectiva do universo feminino, da sensibilidade feminina. Conseguir captar essa  sensação de ter sido presa numa ratoeira, numa rotina onde a vida perdeu todo o sabor e paixão. E não ver qualquer saída.

Rachel é uma professora a entrar na meia-idade, naquela idade de transição em que se perderam os sonhos da adolescência e em que se acorda para uma rotina cada vez mais desinteressante. Rachel acorda todos os dias e fica a imaginar-se morta. Fim. Não ter de se levantar. Não haver nada que a entusiasme, que a anime a encarar outro dia igual ao anterior.

O seu papel, tecido ao longo dos anos desde uma infância a viver tão perto da morte (profissão do pai), tão perto que o pai a quer proteger da morte, e ao proteger da morte protege-a da própria vida. Sim, a morte como companhia constante da sua infância...

 

Rachel vive agora com a mãe. O seu papel, de eterna filha, de subalterna na própria casa, esse peso insuportável de viver uma vida que não é a sua, uma vida em segunda mão, numa espécie de transição prolongada, tão prolongada que ficou parada, encravada, num tempo-espaço sem vida nem amor lá dentro.

Rachel não é essa mulher que vê no olhar crítico, frio e egoísta da mãe, às vezes malévolo, para ferir e manipular. Rachel também não é essa mulher solitária, carente e vulnerável que vê no olhar do colega da escola. E igualmente não é a mulher frágil, carinhosa e próxima que vê no olhar da sua melhor amiga.

Rachel quer libertar-se dessa ratoeira de um tempo-espaço, de um papel que não lhe serve, que só serviu para se proteger da vida e do amor, sequência natural de uma infância marcada pela proximidade da morte, a paragem do tempo que foi deixando instalar-se por pena e cobardia perante uma mãe egocêntrica e limitada.

 

Só quando enfrenta essa possibilidade de uma vida própria e de um amor possível, da própria possibilidade da maternidade, é que Rachel acorda a sua energia vital.

Dois acontecimentos desencadeiam esse despertar irreversível. Um, a experiência do amor com um dos amigos de infância, que não via há anos, o gémeo sobrevivente da sua infância, a descoberta de uma outra solidão semelhante à sua, mas com outra estrutrura - a incapacidade de amar. Outro, a possibilidade da maternidade, uma vida dentro de si, alguma coisa viva!

Mas é também a única saída para escapar à alternativa natural de mulheres solitárias numa pequena comunidade: a histeria religiosa, as experiências emocionais (e de substituição do afecto autónomo), vividas em grupo e dirigidas por um Pregador manipulador, essa experiência traumática após o convite da amiga.

 

Rachel quer amar e ser amada. Aproximar-se da vida, do amor possível. E é depois da decepção da falsa gravidez que decide partir. Cena impressionante, do diálogo com a mãe, a sua afirmação como uma mulher autónoma, que quebra uma rotina e um papel que não lhe servem, e todo o passado familiar, do olhar instalado e imutável dos outros. Pela primeira vez, passa a protagonista da sua história.O futuro é incerto e é assim que deve ser. E nesse incerto desconhecido, tudo é possível, encontros, relacionamentos, afectos. A vida, afinal.

 

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publicado às 17:14

A família como lugar onde ainda é possível relativizar o drama

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 20.03.08

 

É cómico-dramático acompanhar esta família numa viagem (metáfora da própria vida) e todos a empurrar a carrinha (metáfora da união do grupo).

Mais cómico-dramático porque vemos as suas mazelas: o tio que sobrevive a uma tentativa de suicídio depois de uma desilusão amorosa e a perda do emprego como professor universitário (além da perda do prémio como especialista de Proust); o avô que se droga no quarto e que morrerá de overdose num motel a meio caminho do concurso Little Miss Sunshine (e ainda por cima deixando a neta sem treinador); o pai que perde um negócio importante, a edição de um livro de auto-ajuda, os Nine Steps, que nem sequer lhe servirá a ele nem a nenhum membro da família; o filho que descobre de forma casual que é daltónico, o que o impede de realizar o seu maior sonho: seguir a carreira de piloto; a mãe que tenta segurar todas as pontas mas que está feita num frangalho.

E no entanto… todos empurram a carrinha! Vem daí a sua força. No meio do desespero, da aflição, estão todos juntos.

Cenas inesquecíveis:

Diálogos tio-sobrinho, o primeiro no quarto e a referência a Nietzsche e ao pacto de silêncio do adolescente; o segundo em frente do mar, breve intervalo da sua vida de losers (desta vez a referência é Proust, e como aliás refere o tio: quem mais loser do que Proust?)

Ao longo da atribulada viagem, as corridas, um a um, ao lado da carrinha, até conseguirem entrar.

Toda a sequência no hospital em que ultrapassam as regras e a necessária papelada: até depois de morto o avô fará parte desta aventura.

Um pequeno grupo de pessoas, tão vulneráveis, que sobrevive às perdas e decepções. A família como lugar onde ainda é possível relativizar o drama. O drama da própria existência.

 

 

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publicado às 15:35

Morangos silvestres

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 03.08.07

Bergman na sua ilha, como a personagem de Saraband. Bergman poético e cruel. A solidão irremediável, primeiro porque se procurou esse espaço existencial, respirável, entre nós e os outros, depois porque já não sabemos viver de outro modo.

Bergman reabre todas as feridas, sem dó nem piedade. As mais profundas, as mais insuportáveis. E de uma forma tão poética… de uma poesia límpida, fresca, áspera, dura. Como essa língua estranha. Mas a mais estranha, a que mais magoa, o silêncio. O silêncio mortal.

Há qualquer coisa de medieval nos seus filmes. Vêm de longe, de raízes muito profundas. Talvez das origens da nossa estranha natureza. Da nossa natureza animal, vegetal, mineral. Da nossa natureza que se confunde com a natureza.

Mas os morangos silvestres… os morangos silvestres...Envelhecer, lembrar, ver o essencial, aceitar a solidão, o afastamento emocional e afectivo. Doce, doce Sjöstrom. Será sempre o meu Bergman preferido. O terror do nosso fim, da inutilidade de toda uma existência. Olhar isso de frente. Aceitar tudo isso.

 

 

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publicado às 14:53


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